Um mundo onde os indivíduos, do sexo masculino, do sexo feminino, ou intersexo, possam viver como seres humanos em primeiro lugar, buscando seus sonhos e desejos de uma forma que não seja limitada por duas caixas artificiais de gênero

Abolicionistas de gênero trabalham para (surpresa) abolir o gênero e, com isso, abolir qualquer sociedade que determine o seu arranjo social com base no formato dos genitais. Numa sociedade sem patriarcado e livre de gênero, as pessoas do sexo masculino, as pessoas do sexo feminino e as pessoas intersexo existiriam da mesma forma que as pessoas com olhos azuis, pessoas com olhos castanhos e pessoas com olhos verdes existem hoje; um grupo é comparativamente mais raro que os outros dois, mas não existiria nenhum sistema para atribuir um valor social enorme a uma biologia em detrimento de outra.

Pessoas do sexo masculino e pessoas do sexo feminino (assim como as pessoas intersexo) ainda seriam reconhecidas como categorias distintas, e cuidados de saúde específicos para cada sexo – assim como espaços específicos para cada sexo, para lidar com questões como gravidez e menstruação – ainda existiriam, obviamente, mas somente da forma que nós atualmente tratamos as diferenças entre tipos sanguíneos ou entre ser canhoto e destro. As pressões que existem atualmente pra que pessoas intersexo “escolham” hombridade ou mulheridade não existiriam, e as cirurgias genitais e os tratamentos hormonais coercivos dados às crianças intersexo seriam considerados uma crueldade primitiva do passado.

Não é isso o que nós buscamos? Um mundo onde os indivíduos, do sexo masculino, do sexo feminino, ou intersexo, possam viver como seres humanos em primeiro lugar, buscando seus sonhos e desejos de uma forma que não seja limitada por duas caixas artificiais de gênero? Onde os seus genitais importam quando eles realmente importam (saúde reprodutiva e outras considerações específicas de sexo) e não importam quando não importam (99% da vida de um ser humano)? Esse mundo é possível, e ele não exige que a gente feche os olhos e finja que macho e fêmea não existem como categorias discretas.

Jonah Mix

 

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Características “masculinas” e “femininas” são características humanas universais inerentes a machos e fêmeas

“Uma noção popular e de grande aceitação é a de que cada pessoa contém um lado “masculino” e um lado “feminino”, com características de gênero prescritas para cada sexo. […] Essas características “masculinas” e “femininas”, no entanto, são características humanas universais inerentes a machos e fêmeas. Historicamente, as características masculinas “naturais” que são valorizadas em culturas dominadas por machos são consideradas “boas”. Características menos valorizadas mas necessárias para a perpetuação da cultura patriarcal são designadas “femininas” e historicamente consideradas inferiores, às vezes ao ponto de serem declaradas algo mau.
Numa cultura patriarcal, características compartilhadas por todos os seres humanos, como amor e cuidado, não são consideradas características masculinas “naturais”, e força e coragem não são consideradas características femininas “naturais”. […] Se um homem é sensível, amoroso e cuidadoso, devemos acreditar que o seu “lado feminino” está em ação? O dualismo reforça a suposição de que machos não são naturalmente capazes de expressar gentileza, compaixão e sensibilidade. Que absurdo! As características humanas de força e gentileza são características que todas as pessoas são capazes de expressar/exibir para ser seres humanos completos. Ensinar às crianças que essas características pertencem apenas a um ou outro sexo perpetua o pensamento dualista e mantém machos e fêmeas como oponentes, inibindo a nossa capacidade humana de inteireza. Essas separações arbitrárias são restritivas pra ambos os sexos, limitando os nossos pensamentos e comportamentos sobre quem nós somos com indivíduos e o somos capazes de fazer e de nos tornar.”

Ruth Barrett, no livro Female Erasure (Apagamento das Fêmeas)

Não Existem Privilégios em Ser Mulher “Cis”

“O Patriarcado consiste na dominação do sexo masculino sobre o feminino e o gênero é um sistema hierárquico impositivo, criado para estabelecer e manter essa dominação. Nenhuma mulher “se identifica” ou optou por fazer parte do papel de gênero submisso e sem direitos.”

Feminismo com Classe

Você provavelmente já ouviu falar de privilégio cis. Esse assunto é frequentemente trazido à mesa nas discussões feministas, nas quais sou invariavelmente lembrada dos meus “privilégios” de “mulher cis“.

E hoje escrevo para desmentir  essa ideia. Não porque seja uma picuinha que eu queira comprar – nada como acumular mil debates desses nas costas para saber como é exaustivo e maçador – mas porque é uma verdadeira desonestidade intelectual dizer que qualquer pessoa do sexo feminino que tenha recebido uma imposição de gênero submisso e socializada para ser mulher tenha qualquer tipo de privilégio.

Fui procurar o que seriam privilégios cis e facilmente encontrei listas enormes. Incluindo uma lista de 130 exemplos de privilégios cisgênero, segundo o Everyday Feminism.

Uma das justificativas para basear a ideia de privilégio, segundo o artigo, é:

“Quando um grupo de pessoas é tratado como a “norma”, na qual todas…

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Gênero não é nada mais do que uma coleção de estereótipos sexistas e homofóbicos

O fato é que gênero não é nada mais do que uma coleção de estereótipos sexistas e homofóbicos que serve para forçar a subordinação das pessoas do sexo feminino e a dominância das pessoas do sexo masculino. O gênero erroneamente trata [certas] preferências e [traços de] personalidade como sendo específicos de pessoas do sexo masculino ou de pessoas do sexo feminino, sendo que não há nenhuma razão lógica para acreditar que ambos os sexos não possam ter traços e gostos semelhantes.

Sam Reitger

Para uma análise detalhada sobre o que é gênero e o que é sexo, veja: A Nova Retaliação – 2. Sexo X gênero

A quem serve uma Esquerda que defende a prostituição?

“A PROSTITUIÇÃO NÃO É A “PROFISSÃO MAIS ANTIGA DO MUNDO”, É SIM A FORMA DE ESCRAVIDÃO MAIS ANTIGA DO MUNDO IMPOSTA ÀS MULHERES.”

Feminismo com Classe

NÃO HÁ NADA MAIS CONTRADITÓRIO que ver pessoas, grupos e organizações que se dizem de esquerda apoiando a regulamentação da prostituição.

Um segmento que se diz embasar no materialismo dialético e lutar contra a exploração do Capital exigindo o reconhecimento do corpo humano como mercadoria de consumo. Ou seja, defendendo a mercantilização da vida.

A mercantilização da vida está no cerne da discussão sobre a luta de classes. E a esquerda marxista sabe que a luta de classes não é apenas de classes econômicas. É essa a questão central da escravidão, por exemplo.

Prostituição: a escravidão das mulheres

Pessoas negras eram listadas como mercadoria nos navios de escravagistas, figurando entre sacos de grãos, matéria-prima, quilos de tecidos e moedas. Eram vendidas e leiloadas em portos e feiras. Eram usadas como moedas de troca. Havia uma supremacia branca que oprimia a classe negra (ainda hoje), mercantilizando suas vidas em…

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A Nova Retaliação – 3. Imaginando um mundo sem gênero

O excelente blog A Nova Retaliação (do original: The New Backlash) é uma série de 16 textos que aborda de forma bem didática questões sobre sexo, gênero, feminismo, pessoas transgênero e pessoas transexuais.

Esta é a tradução do terceiro texto da série (do original: 3. Imagining a world without gender); aos poucos vou postar as traduções dos textos restantes.

Tradução dos textos anteriores:

A Nova Retaliação – 1. Introdução

A Nova Retaliação – 2. Sexo X gênero

Notas de tradução estarão entre chaves {}. Todo o resto, incluindo links (para outros textos em inglês), negrito e itálico, segue a formatação do texto original.


A Nova Retaliação

3. Imaginando um mundo sem gênero

sexo gênero correntes

Como seria um mundo sem gênero?

Primeiro, um resumo de como o gênero funciona numa sociedade com supremacia masculina (também conhecida como patriarcado):

Como gênero funciona

{Clique aqui para acessar a tabela acima em arquivo de texto}

Se as feministas conseguirem abolir o gênero:

Se gênero for abolido

{Clique aqui para acessar a tabela acima em arquivo de texto}

Algumas pessoas acham que se a gente abolir o gênero, todo mundo vai ser forçado a usar roupas bege e ter o cabelo raspado. Isso é porque essas pessoas confundem símbolos ou sinais de gênero (específicos de cada época e local) com a verdadeira hierarquia de gênero subjacente. Essas pessoas pensam no gênero como uma fantasia, e não como um sistema de relações de poder.

Num mundo sem gênero, todas as “coisas” da vida social humana ainda estariam disponíveis, o acesso a elas simplesmente não seria mais limitado pela capacidade reprodutiva aparente.

Num mundo sem gênero, os meninos teriam permissão pra usar vestidos (mas não seriam forçados) e as meninas teriam permissão pra evitar usar vestidos (mas não seriam forçadas). O mais importante, tanto meninas quanto meninos teriam permissão pra (mas não seriam forçados a) brincar com bonecas, subir em árvores, construir Legos, praticar esportes e entender de computadores, se essas atividades forem do seu interesse. Tanto meninas quanto meninos seriam responsáveis pelas atividades domésticas. Tanto meninas quanto meninos teriam permissão pra desenvolver qualidades de liderança e técnicas de cooperação. E nem meninas nem meninos seriam treinados pra se objetificar ou pra resolver seus problemas por meio de violência.

Pra um excelente exemplo de criação de filhos que resiste às restrições de gênero, eu recomendo esse ensaio revigorante do blog “Senso de Encantamento” : Criação de filhos com neutralidade de gênero, ou quando a sua filha quer um moicano, e esses dois sites: Deixem os brinquedos ser brinquedos e Homem versus Rosa.

Num mundo sem gênero, mulheres poderiam usar maquiagem e salto alto se escolherem, e homens também. Ambos também poderiam sair de cara lavada e tênis e ninguém se importaria. Mas o mais importante, num mundo sem gênero — um mundo que não assume a dominância dos machos e a submissão das fêmeas —, as feministas imaginam e trabalham por possibilidades pra as mulheres que vão muito além da liberdade de como se arrumar: igualdade de educação, oportunidades e salários; serviços gratuitos de contracepção e aborto por pedido; creches 24 h gratuitas; a normalização da independência legal e financeira; o fim de toda a discriminação contra lésbicas; e talvez o mais importante de tudo, a liberdade da violência masculina.

Agora, considere por que um mundo sem gênero é tão difícil pra gente imaginar. Um mundo sem gênero é um mundo sem privilégio masculino. Um mundo sem gênero poderia significar que os homens poderiam usar vestidos e maquiagem, sim. Um mundo sem gênero poderia significar que os homens poderiam chorar vendo filmes tristes e se abraçar em público! MAS — sem gênero, os homens não seriam mais o humano padrão, com as mulheres como sub-humanos não-homens, destinadas a servi-los. Sem gênero, homens não seriam perdoados pela violência que mantém as mulheres na linha. Sem gênero, as mulheres não seriam mais treinadas desde o nascimento pra acalmar os homens e colocar as nossas próprias necessidades e desejos por último. Sem gênero, os homens perderiam um mundo de babás, secretárias, empregadas domésticas, e prostitutas, todas aterrorizadas a diferentes graus de abnegação. Os homens — incluindo os homens ditos “libertários” — não vão desistir desse mundo sem uma briga.

Próximo texto: Pessoas transexuais (não são o problema){tradução disponível em breve!}.

Gênero é socializar meninos para que se tornem sadistas e meninas para que se tornem masoquistas

“Gênero é socializar meninos para que se tornem sadistas e meninas para que se tornem masoquistas. Não estou interessada em trocar esses papéis, estou interessada em abolir esses papéis.”

Fonte: este post, do blog Secretly Radical.

Para saber mais sobre o que é gênero e o que é sexo biológico, veja: A Nova Retaliação – 2. Sexo X gênero